domingo, 13 de março de 2011

LIÇÃO DAS COISAS

Disponível no Banco de Imagens do Google




Não há o que detenha o avanço
das teias do tempo n’alma.
Teus atos, experiências,
amores, ofícios, reixas,
torcem, distorcem as teias
do tempo que tudo empalma.

Empalma os rastros que deixas
ao mar, no ar, nas areias...
Sutil, em suas cadências,
aranhas mil têm o tempo
a entretecer suas teias...

Dispersam os teus afetos.
Matam os sonhos que enfeixas.
Ai, nada detém o avanço
do tempo em nossas madeixas...

Mas, é preciso te afastes
de vez da porta ilusória
do labirinto das queixas.
As teias sutis do tempo
não atinjam tua essência,
quanto esses rastros que deixas.


Poema de Sergio Sersank (Do livro "Estado de Espírito")
(Direitos autorais protegidos por lei)

terça-feira, 8 de março de 2011

ENQUANTO É NOITE EM MINHA’ALMA


Fonte:
(Disponível no Banco de Imagens do Google)

Eu olho, enquanto sigo, a antiga sombra
que andeja no meu passo,
a sombra minha -
projeção de ser volante,
coisa entre as coisas que o tempo espezinha.                               

Arte a amoldar-se no fumo nas furnas,
crença a evolar-se do sangue na arena,                         
foge entre as pernas que dançam na noite,
mergulha nas águas que a guerra envenena.

Perdida no tropel dos séculos que avançam,
ressurge aqui e ali, num ou noutro país.
Ergue-se da estrada de Damasco.
Treme entre os lampiões de Auschwitz.

Acorre ao átrio do Templo de Delphos.
Queda ao pé da esfinge milenária.
Em tudo a encontro, me segue,
como se necessária. 

Segue-me, inevitável.
Vara comigo a neblina.
Até que a noite em minh’alma
ao sol descerre a cortina.
Porque não projeta a sombra
o ser quando enxerga em círculo
e, por sua vez, ilumina.

(Poema do "Estado de Espírito")



domingo, 6 de março de 2011

CANTIGA DO AMOR AUSENTE


(Disponível no Banco de Imagens do Google)


Com certa freqüência,
e alguma evidência,
um como que eflúvio,
um fluido anormal,
comove-me inteiro;
sugere-me o cheiro
do teu corpo astral.

Me faz ver que espaços
e tempos se fundem
nas coordenadas
do plano sidéreo.
Que nós que provimos
do Grande Mistério,
da Luz Racional,
também convergimos
ao vértice dessa
Energia Total.

Traduz que uma vida
é estrela incendida
na concha do ser.
Sussurra, de leve:
"Se o sonho foi breve,
infindo é o viver..."

Ah, terno arrepio,
que faz tanto bem!...
Eu sei quando o sinto:
é tua alma que vem,
que vem e me envolve,
me enleva,  me  abraça,
me beija do Além...


Poema de Sersank (Do livro "Estado de Espírito")

quarta-feira, 2 de março de 2011

APELO AO AMOR TARDIO












Fonte:
http://api.ning.com/files/uWfVRC*naet6z154RzBPUw09Wm3mD4UTExfoKTGbtEavvA0ywAZ-xTDsqHj3SxZPx1OflyYuALWhjZoHcwJcKRTlmNefA-A3/mulher_pensa1.JPG
Banco de Imagens do Google




Não te demores. Meu tempo,
é ontem. Futuro: agora.   
Se tardas este que há sido
amante e amigo, bastante,
já nada será, Senhora.
Talvez esteja, acredite,
estrelas adiante, aí...
Não te demores; ainda,
agora, me tens aqui...
Se tardas este que há sido,
não será senhor de si.
Errarão, talvez, meus olhos
anos-luz longe de ti.


(Do Livro "Estado de Espírito", de Sersank)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

ESTÓRIA URBANA




Genivaldo dos Andaimes
pouco mais de trinta anos,
cinco meses de instrução.
Egresso das caatingas
do nordestino sertão.
(Num dos barracos do morro
sete bocas se nutriam
dos calos de suas mãos).

Operário diligente
dos prédios em construção.
Artista, nas horas vagas,
como todo bom peão.
Aficionado à viola
e à "causos" de assombração.
Presença certa nas rinhas,
rodas de "truco" e rodeios;
festeiro por vocação.

Certa feita, após uns goles
de conhaque de alcatrão,
ouviu estranha proposta,
à meia-voz, num balcão,
de um facínora que vinha
agindo na região.

Tornou à casa, sombrio,
tomado de compunção.
Mas, vendo a mulher, a um canto,
resmungar-lhe um palavrão,
os filhos debilitados
pela subnutrição;
eles todos da indigência
resvalando à condição,
sentiu que o vulcão do peito
entrara em erupção.

Acostumado à dureza,
fez-se outro, desde então:
tomou a estrada do crime
sumiu-se na escuridão.

.............................................................


Numa tarde, ele e o comparsa
adentram, a mão armada,
magnífica mansão.
São, no entanto, surpreendidos,
pela polícia, na ação.

No cerco, que toma a quadra,
fazem reféns. Só se entregam
pós árdua negociação.
A imprensa, cobrindo o fato,
lhe amplia a repercussão.

Toda a cidade quer vê-los.
A polícia, ao removê-los,
Vacila. É o caos. Convulsão.
Acabam submetidos
à fúria da multidão...

..................................................


Genivaldo dos Andaimes 

cinco filhos na penúria;
o lar em dissolução
e o comparsa, um ex-detento,
sem direito a julgamento,
são linchados, sem perdão...


Poema de Sersank







sábado, 19 de fevereiro de 2011

POEMA CONJETURAL

Fonte: Banco de Imagens do Google




Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?

Eu sou o teu vaso - e se me quebro?

Eu sou tua água - e se apodreço?

Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.”
Rainer Maria Rilke




Um século tombado sobre a ossada inerte
do derradeiro espécimen da raça humana,
nenhum extraterrestre, fera alguma
terá se elevado ao fatídico trono. 
O mundo será dos ratos. Será.

O espectro de Zeus, trôpego, em busca
do antigo Partenon
volitará das montanhas em bruma
até aos confins dos mares,
por noites infindas, sem lua.
Tufões o seguirão, nos seus retiros
aos vales de fumo e treva -
dantes metrópoles rígidas .

Um século, talvez,
talvez milênios,
tombados sobre os escombros
do Cristo Redentor
no Corcovado,
ainda eclodirá nas vastidões de Hades,
o réquiem do humano ciclo.

“Requiescant in pace”
entre os filhos melhores dos homens,
os deuses todos, malditos
deuses que os não protegeram...

Bem hajam futuros lampejos de sol no céu turvo!
 Atinjam os cimos gelados da crosta!
 Aqueçam antigas campinas,
devolvam-lhe os ribeiros, tragam tempestades
que despoluam o ar!

Que, por milagre, enfim, algum arbusto cresça 
e a Terra possa retomar o seu destino!...





(Poema de Sersank, do livro "Estado de Espírito")




domingo, 6 de fevereiro de 2011

POEMA DA NOITE VAZIA


O poeta Mario Quintana em seu quarto no Hotel Majestik
 (hoje Casa de Cultura Mario Quintana - PA)
Fonte:


Depois de algum tempo
pensando o poema,
queda, a um suspiro,
inerte, a caneta -
leve instrumento
que a mão do poeta
mal soube tocar...

Noite asfixiante. 
A saúde precária.
A casa deserta.
À janela, entreaberta,
nuvens espessas
cobrindo o luar.

Exausto, cerro a cortina.
Dispo-me, agora, me deito.
Não quero, esta noite,
nem ler, nem rezar.

Sou - tal me sinto - um ser ectoplásmico -
vulto sem cor, crença ou pátria,
duplo etéreo, extemporâneo,
de um homem que se desconhece
e deixa a vida o levar.

Um outro e melhor poema
não me daria esta noite
com suas nuvens espessas
a recobrir o luar...


(Do Livro "Estado de Espírito", de Sersank)

domingo, 30 de janeiro de 2011

BALADA DO AMOR IMPOSSÍVEL

Fonte:


  

Neste meu jeito de amar
nunca demonstro querer-te.
Por eximir-me de ousar
resigno-me a não fruir.
Contento-me só de ver-te.
sorrio, se estás a rir.
Vivem em mim personagens
que não podem coexistir.

Ao mar do tempo infinito
me perco nas deslembranças
de estâncias não revividas.
Cenas submersas, perdidas,
borbulham, roubam-me o sono  
jamais emergem à tona...
Mas eu as plasmo: és donzela
ingênua, de longas tranças.
Eu - um príncipe que, ao ver-te,
loucamente se apaixona.

Assim, em céus de outra esfera,
corremos como crianças
por entre louros trigais...
Podemos mesmo alçar vôo,
circundar cimos distantes
de planícies virginais.

Da sinfonia celeste -
acordes a se expandir,
em nós refulge o arco-íris!
E, feliz por existires,
sendo da vida, não minha,
cinjo-te a beijos – rainha;
minha razão de existir!

Mas, nesta vida plebéia
não sei que tenho, que idéia
impede-me, assim, de ousar.
Meu jeito estranho de amar
traduz bem mais que querer-te.
E só o que faço é sonhar.
Contento-me só de ver-te...

                                                         Ao mar do tempo infinito
                                                         me perco nas deslembranças,    
                                                         resigno-me a não fruir.  
                                                         Vivem em mim personagens
                                                         que não podem coexistir...

(Do livro "Estado de Espírito", de Sersank)

domingo, 23 de janeiro de 2011

QUEIXUME




Fonte:



Chegaste, assim, de mansinho,
quando eu, carente, sozinho,
andava em busca de amor.
Lembrava, então, o eremita
que, entre penhascos, transita
à cata de rara flor...

Chegaste, ficaste um pouco,
bem pouco, e deixaste louco
de amor este coração
que, agora que te partiste,
bate no peito mais triste,
bate, talvez, sem razão...

Nunca mais, nunca mais, juro,
quero amar! Que o amor mais puro,
é seta que avança ao Nada.
Sofro a dor do colibri
depois de noite agitada:
- Onde a flor que estava ali?
- Ora, a sua flor!... foi levada...


(Do livro "Estado de Espírito", de Sersank)

sábado, 8 de janeiro de 2011

NÓTULAS DE APREÇO À VIDA








-I-
Ante o concerto divino,
no Espaço-Tempo, sem fim,
vejo-me tão pequenino
que sinto pena de mim...

-II-
Junto ao vazio esplendor
do mausoléu de um suicida,
numa cova rasa, em flor,
leio o epigrama da vida.

-III-
Morrer não seduz aos fortes.
Se sofres, pára  e  reflete.
E tanto quanto o suportes
leva a cruz que te compete!

-IV-
Nossa vida a Deus pertence.
Manter-se vivo é um dever.
Se ilude quem fale ou pense
que tem direito a morrer.

-V-
Crê em Deus. Em Deus espera,
não te furtes de lutar!
Deus deu-te a vida. Pondera:
que mais não te pode dar?

-VI-
Apaga-se um sol no espaço
e já um outro reluz.
É a vida, no seu compasso,
A vida jorrando a flux!

-VII-
“Esperar!” - Lição divina
que o céu bem sabe exprimir:
Num extremo o sol declina,
no outro irá ressurgir.

-VIII-
Escuta, amigo, este aviso:
- Foge aos horrores do ópio!
Ninguém faz, em são juízo,
Experiência em si próprio.

-IX-
Não imagines tragédias.
Poupa-te desses delírios!
Quem ama suporta e vence
os mais atrozes martírios!

-X-
- Pena de morte? – Sou contra!
Nada há que a legitime.
É um paradoxo, uma afronta:
Um crime como o outro crime!

-XI-
- Barra a idéia do suicídio.
Sorve a taça do teu fel!
O mundo não é um presídio.
Olha os pássaros no céu...

-XII-
Porque sai batendo as portas
do mundo e execrando a vida,
Um mundo de coisas mortas
abre as portas ao suicida.



(Trovas de Sersank, parte integrante do livro "Estado de Espírito")


sábado, 1 de janeiro de 2011

À MEIA LUZ




(disponível no Google)


(Um poema para o ANO NOVO)


 Esgotado o meu fardel de fantasias, 
 nesta noite do ano que finda,
 porque também por estar vivo, eu me comovo, 
 posso e devo afiançar-te que conservo, ainda, 
 a crença em Deus, na força cósmica da vida 
 e na esperança do povo. 

Amiga, o trem da história há de seguir seu curso. 
A estrada que se estende à nossa frente
 raros neste tempo nebuloso, 
sabem aonde vai dar. 
Dizem que a avançar por cordilheira eterna
acaba simplesmente sobre o mar.

Amiga, é sensato crermos:
já senhores de si mesmos, 
quanto senhores da terra, 
do fogo e da água,
um dia, leves e livres, 
os homens 
tornam-se seres do ar.


(Do livro de Sersank "Estado de Espírito")


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COMENTÁRIO DE ISABEL FURINI, laureada poeta e escritora sobre a obra poética "Estado de Espírito"

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EL VIAJE DEFINITIVO - Poema de Juan Ramon Jimenez

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