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sábado, 22 de novembro de 2025

ECOS DO ROMANTISMO

 


ROMANTISMO




Imagem disponível no Google

Névoas


Nas horas tardias que a noite desmaia 
Que rolam na praia mil vagas azuis, 
E a lua cercada de pálida chama 
Nos mares derrama seu pranto de luz, 

Eu vi entre os flocos de névoas imensas, 
Que em grutas extensas se elevam no ar, 
Um corpo de fada - sereno, dormindo, 
Tranquila sorrindo num brando sonhar. 

Na forma de neve - puríssima e nua -
Um raio da lua de manso batia, 
E assim reclinada no túrbido leito 
Seu pálido peito de amores tremia. 

Oh! filha das névoas! das veigas viçosas, 
Das verdes, cheirosas roseiras do céu, 
Acaso rolaste tão bela dormindo, 
E dormes, sorrindo, das nuvens no véu? 

O orvalho das noites congela-te a fronte, 
As orlas do monte se escondem nas brumas, 
E queda repousas num mar de neblina, 
Qual pérola fina no leito de espumas! 

Nas nuas espáduas, dos astros dormentes 
- Tão frio - não sentes o pranto filtrar? 
E as asas, de prata do gênio das noites 
Em tíbios açoites a trança agitar? 

Ai! vem, que nas nuvens te mata o desejo 
De um férvido beijo gozares em vão!... 
Os astros sem alma se cansam de olhar-te, 
Nem podem amar-te, nem dizem paixão! 

E as auras passavam - e as névoas tremiam 
- E os gênios corriam - no espaço a cantar, 
Mas ela dormia tão pura e divina 
Qual pálida ondina nas águas do mar! 

Imagem formosa das nuvens da Ilíria, 
- Brilhante Valquíria - das brumas do Norte, 
Não ouves ao menos do bardo os clamores, 
Envolto em vapores - mais fria que a morte! 

Oh! vem; vem, minh'alma! teu rosto gelado, 
Teu seio molhado de orvalho brilhante, 
Eu quero aquecê-los no peito incendido, 
- Contar-te ao ouvido paixão delirante!... 

Assim eu clamava tristonho e pendido, 
Ouvindo o gemido da onda na praia, 
Na hora em que fogem as névoas sombrias 
- Nas horas tardias que a noite desmaia. 

E as brisas da aurora ligeiras corriam. 
No leito batiam da fada divina... 
Sumiram-se as brumas do vento à bafagem, 
E a pálida imagem desfez-se em - neblina!


Fagundes Varela 



Wilson Martins
Poeta maldito
Jornal do Brasil
3.12.2005
Em nossas letras, Fagundes Varela é figura paradigmática do poeta maldito, numa escala em que, aliás, não eram os poetas tenebrosos que faltavam (Melhores poemas, Sel. Antônio Carlos Secchin. São Paulo: Global, 2005). Em 1861, as Noturnas, seu livro de estréia, continham dez poemas arcaizantes, prolongando a atmosfera byroniana da Academia de São Paulo na geração anterior: “A temática do maldito e do errante, do foragido e desenraizado predomina nesses poucos poemas, escritos no período em que ele ‘escolhia’ existencialmente a sua própria biografia (O foragido, Fragmentos, Sobre um túmulo, Tristeza), descontada a espórtula que pagou à imitação literária e aos lugares-comuns da escola”, observei na História da inteligência brasileira.
Não era, contudo, e à diferença de tantos outros, uma atitude literária ou cacoete romântico: era um destino e uma condenação prometéica. Nas palavras de Antônio Carlos Sechin, “toda a sua vida foi marcada por desencontros, projetos inconclusos, infortúnios. Na vida acadêmica, não conseguiu concluir o curso de Direito (...) na vida afetiva, foi infeliz nos dois casamentos ... dois dos seus filhos morreram antes do primeiro aniversário... dependia financeiramente do pai.. zanzou, bêbado, por lugarejos e fazendas fluminenses, declamando de improviso versos que passaram à tradição oral (...)”.
Nos românticos da geração anterior, o byronismo foi uma extravagância de juventude; ele, chegando “tarde demais num mundo demasiadamente velho”, viveu a frustração de não poder competir em igualdade, menos ainda superar, os marcos que outros haviam plantado antes dele. Sua vida desregrada foi uma vingança, uma reação de ressentimento. Era também uma obsessão obscura: em 1865, prefaciando os Cantos e fantasia, Ferreira de Menezes dizia tratar-se da “ressureição de Álvares de Azevedo”, mas, acrescento por minha conta, ele apresentava sobre o autor adolescente da Lira dos vinte anos a vantagem do amadurecimento emocional e poético. O volume incorporou para sempre à nossa literatura o “Cântico do Calvário”, além de introduzir uma nota nova no lirismo amoroso: a desgraça de uma personalidade anormal, condenada sem esperança à infelicidade e ao sofrimento.
Falecendo em 1875, ele deixou no prelo Anchieta ou O Evangelho nas selvas, tentativa, ao mesmo tempo, de epopéia cristã e reafirmação de fidelidade católica e jesuítica, linha de inspiração que seria retomada por Bittencourt Sampaio, em 1882, com A divina epopéia de João Evangelista, paráfrase evangélica a colocar na mesma estante da paráfrase vareliana da história sagrada. De fato, seus mais de oito mil decassílabos brancos, escreve Antônio Carlos Secchin, “revelam um escritor de grande domínio técnico, embora o imperativo de obediência à narrativa do Novo Testamento acabe freando maiores ímpetos de imaginação, reduzindo o nível do texto a uma mediania algo tediosa ao leitor não particularmente aficionado do assunto”. É o menos que se pode dizer a respeito de um poema mais propenso a desencorajar a fé do que a estimulá-la. Para compô-lo em alto plano poético seria preciso um pensamento poderoso, uma maturidade filosófica e uma inspiração épica que lhe faltavam por completo, idealmente imagináveis na pena de um Antônio Vieira, não na do bem intencionado Anchieta.
Sua incapacidade para tratá-lo aparece desde logo na ficção de que se serviu: os Evangelhos explicados aos índios, o que corresponde a ignorar-lhes a grandeza e a essência. Sua tarefa seria, antes, a de “interpretar” e não a de parafrasear, seria, por assim dizer, “criá-los” no piano poético, como Victor Hugo criou a história da humanidade na Légende des siêcles. Quando Varela se atreve a abandonar os carreiros estreitos da paráfrase é para cair, ou na heresia teológica, apresentando Sócrates como precursor de Jesus, ou na antecipação malvinda, com a antevisão do continente americano, ou no anacronismo puro e simples, colocando os Francos na Gália ao tempo de Jesus. Nesse quadro, surpreende encontrá-lo compromissado com a realidade social e política do momento, a exemplo do poema “A estátua eqüestre”, que encerra o volume de 1861. Trata-se da enorme polêmica que agitara o país em 1855, quando Haddock Lobo propôs à Câmara Municipal do Rio erguer um monumento ao fundador do Império, na praça da Constituição. Àquela altura, o projeto não despertou nenhum antagonismo, abrindo-se o concurso em que foi escolhido o modelo do escultor Mafra, mandado executar em Paris.
Contudo, ao se aproximar a data da inauguração, os liberais mais exaltados e os republicanos viram nessa homenagem uma tentativa dissimulada de revitalizar as instituições monárquicas. Publicado no momento da inauguração, um poema célebre de Pedro Luís chamava à estátua “mentira de bronze”, opondo a Pedro I o nome de Tiradentes como verdadeiro herói da emancipação brasileira. Datado de 1861, o poema de Varela insiste nos mesmos temas, nas mesmas imagens e paralelos históricos: “Ergue-te ousado sobre o chão da praça,/ Homem de bronze – imagem de monarca / Simulacro fatal! (...) Raça de ilotas ... por que reledes o passado escuro / Quando deveras derribar os tronos / Cantando a liberdade ? // Vota-se à treva o busto dos Andradas, / Some-se a glória de ferventes mártires / Na lama do ervaçal! / Mas fria a estátua pisa a turba, como / As dura patas do corcel de bronze / O chão do pedestal!”.
O poeta também comungou na indignação coletiva por ocasião da famosa Questão Christie – “diplomata insolente, ave maldita”: “Dize, filho da sombra, – onde aprendeste / A voar como as àguias ? ”. Reconheçamos que não estava nada mal no seu gênero, inspirando-lhe ainda, com o poema “ A São Paulo”, pátria de heróis, berço de guerreiros “, uma das páginas mais belas e perfeitas de nossa literatura poética, tanto mais admirável quanto não faz a menor alusão ao incidente diplomático: ”Foi no teu solo, em borbotões de sangue/ Que a fronte ergueram destemidos bravos (...). O que, sub-reptícia e ironicamente, significava restituir a Pedro I o seu papel no processo da Independência...
                                                                              http://www.jornaldepoesia.jor.br/fvarela.html
                                                               http://www.jornaldepoesia.jor.br/wilsonmartins.html

sábado, 21 de outubro de 2023

O Cântico Negro, de José Régio (Por Paulo Gracindo, inesquecível ator brasileiro)





Cântico Negro

José Régio


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces 
Estendendo-me os braços, e seguros 
De que seria bom que eu os ouvisse 
Quando me dizem: "vem por aqui!" 
Eu olho-os com olhos lassos, 
Há, nos olhos meus, ironias e cansaços 
E cruzo os braços, 
E nunca vou por ali... 

A minha glória é esta: 
Criar desumanidade! 
Não acompanhar ninguém. 
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade 
Com que rasguei o ventre à minha mãe 

Não, não vou por aí! Só vou por onde 
Me levam meus próprios passos... 

Se ao que busco saber nenhum de vós responde 
Por que me repetis: "vem por aqui!"? 

Prefiro escorregar nos becos lamacentos, 
Redemoinhar aos ventos, 
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, 
A ir por aí... 

Se vim ao mundo, foi 
Só para desflorar florestas virgens, 
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! 
O mais que faço não vale nada. 

Como, pois sereis vós 
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem 
Para eu derrubar os meus obstáculos?... 
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, 
E vós amais o que é fácil! 
Eu amo o Longe e a Miragem, 
Amo os abismos, as torrentes, os desertos... 

Ide! Tendes estradas, 
Tendes jardins, tendes canteiros, 
Tendes pátria, tendes tetos, 
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... 
Eu tenho a minha Loucura ! 
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, 
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios... 

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém. 
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; 
Mas eu, que nunca principio nem acabo, 
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo. 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! 
Ninguém me peça definições! 
Ninguém me diga: "vem por aqui"! 
A minha vida é um vendaval que se soltou. 
É uma onda que se alevantou. 
É um átomo a mais que se animou...

 Não sei por onde vou,
 não sei para onde vou. 
Sei que não vou por aí!


 Sei que não vou por aí! Poemas de Deus e do Diabo  (1925)  O poema ‘Cântico Negro’ é dedicado a Sofia D’Orey.

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José Régio, poeta português


Breve biografia de José Régio

Por Luís Miguel Costa

José Maria dos Reis Pereira nasceu em Vila do Conde a 17 de Setembro de 1901. A sua vida é marcada por três meios: Vila do Conde e o seu mar, Coimbra e a sua tradição do tardio século XIX, Portalegre e o mundo largo e ancestral que ela significa.





Filho de Maria da Conceição Reis Pereira (1876-1946) e de José Maria Pereira Sobrinho (1876-1957), terá ficado a dever ao pai um certo e duradouro gosto pela vida, subjacente e teimoso, mesmo nos piores momentos, e também um gosto precoce pelo teatro. Foi ao temperamento materno, nervoso, errático, ansioso, doentio, obsessivo, que foi buscar o seu fundo humano-artístico. José Maria tinha ainda quatro irmãos mais novos: Júlio, artista plástico que como poeta usa o pseudónimo de Saúl Dias, Antonino, emigrado para o Brasil onde faleceu, Apolinário, oficial do exército e artista plástico, e João Maria, autor de um livro de poesia e também dado às artes plásticas.

Ainda muito novo José Maria começa a ler e a escrever. Dos doze para os treze anos escreve o primeiro caderno de versos a que dá o nome de Violetas. Aos quinze anos descobre António Nobre, cujo  o impressiona extraordinariamente. É um leitor atento, apaixonado, fiel aos seus amores, perspicaz, mas não um leitor voraz. Gosta de demorar com um texto, meditando-o, interrogando-o frequentemente, abandonando-o provisoriamente para a ele voltar mais tarde. Desconfia mesmo do tipo de leitor devorador de livros. Ler é pois um acto crítico, que se pratica em profundidade, um modo de ir dentro que se consegue pela qualidade e não pela quantidade da leitura.

Os seus primeiros grandes entusiasmos são o Rocamble de Ponson du Terrail e Os dois garotos de Pierre Decourdelle. Outra grande influência, não só da juventude mas de toda a vida, foi Flaubert, sendo possível descobrir uma mundo de encontros e coincidências entre ambos: a solidão, a neurose criadora, a descoberta do trabalho como forma de salvação, a aversão a escolas, a consciência profissional, a recusa da capital com a sua agitação superficial e pretensiosa, as atitudes perante a vida... Grande influência durante os seus anos de formação tiveram ainda a Vida de Jesus de Renan, os Evangelhos, o Antigo Testamento e a Imitação de Cristo.

Entre os catorze e os dezoito anos perdeu a fé. A sua fé nunca tivera um apoio intelectual articulado, havia sido sempre algo muito problemático e poroso à perfídia da dúvida.

Até aos dezasseis anos frequenta o liceu de Vila do Conde, respirando o ambiente familiar da Velha Casa. Esta pequena cidade e a casa foram ao longo da vida o seu refúgio, o regresso ao paraíso da infância, o polo de atracção. Os dois últimos anos do liceu frequenta-os no Porto, num colégio como aluno semi-interno, estando matriculado no Liceu Rodrigues de Freitas.

Terminados os estudos secundários na Póvoa do Varzim e no Porto, matricula-se na Faculdade de Letras de Coimbra, na secção de Filologia Românica, onde conclui a licenciatura em 1925, com uma dissertação revolucionária para o tempo: As Correntes e as individualidades da Moderna Poesia Portuguesa. Esta escolha da cidade do Mondego significava, por implicação, a rejeição da Faculdade de Letras do Porto, onde dominava a figura de Leonardo Coimbra, cuja maciça sedução deixara o jovem José Maria de pé atrás. Perturbado, dividido, inquieto, sedento de clareza e não de brilho é sobretudo António Sérgio quem o atrai e equilibra. Parte para Coimbra aos dezoito anos, após uma grave crise nervosa que durou o período das férias grandes e que a mudança acabará por curar. Crise nervosa a que dá muita importância e onde se revela o seu temperamento quase patologicamente nervoso herdado da mãe.

A estadia em Coimbra prolongar-se-á até 1927. É um período longo de aprendizagem, de descoberta dos outros e de si próprio, numa alternância entre um convívio apetecido e um retiro necessário. Apesar de aluno irregular, raramente indo às aulas, lê intensa e extensamente, surpreendendo os colegas com os nomes desconhecido na Coimbra de então.

Ainda no ano de 1925 dá-se a sua estreia literária, publicando Poemas de Deus e do Diabo, usando pela primeira vez o pseudónimo de José Régio. Os Poemas não tiveram imediatamente uma aceitação espectacular mas foram acolhidos com entusiasmo e perturbação.

Em 1927 funda, com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, a revista e o movimento literário da Presença. A revista pretendia promover um movimento no sentido de revitalizar as letras e as artes em Portugal, promovendo a imagem dos principais argonautas do primeiro modernismo e lançando as bases de uma crítica exigente do estado das letras no país. Os homens da Presença apresentam-se ainda como criadores, aliando às conquistas revolucionárias do primeiro modernismo um sentido de equilíbrio e um arrefecimento crítico pedagógico que lhes vai permitir impor a arte moderna a um público relutante e despreparado.

Do ponto de vista religioso os anos de Coimbra devem ter correspondido à ponta negativa mais acentuada de toda a sua carreira, andando indiferente a qualquer ideia ou sentimento de Deus e vivendo o seu crer não crendo.

Em 1928, José Régio fixa-se em Portalegre como professor do Liceu Mousinho da Silveira, funções que desempenhará durante trinta anos, até 1962 ano da sua reforma. Apesar de afastado geograficamente do centro de produção da revista Presença continua a dirigi-la com Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca. Em 1930 este último afasta-se, assinando com Miguel Torga e Edmundo de Bettencourt uma carta de despedida. A vaga deixada na direcção da revista é preenchida por Adolfo Casais Monteiro, que permanecerá no cargo até à extinção da revista em 1940.

Depois do vendaval de Coimbra, Portalegre era o isolamento, numa pequena cidade provinciana sem horizontes culturais, sem amigos. Aqui o autor de A Velha Casa leva a cabo uma obra literária notável pela profundidade, pelo volume e pela variedade, fazendo proveito do sofrimento em que vivia.

A mudança para o Alentejo foi-lhe de difícil aceitação. Mas vencida a resistência dos primeiros tempos, acaba por cair numa habituação difícil mas profunda e a estranha casa da Boa Vista iria tornar-se o melhor ambiente de trabalho, a oficina onde a maior parte da sua obra seria elaborada. À medida que vai criando amigos e raizes em Portalegre a vida solitária vai-se-lhe tornando menos difícil, às vezes quase aprazível. O tédio e o desespero tornam-se, também, promotores de criação; o autor assume e utiliza a solidão mas, no fundo, não se resigna a ela.

Como professor era meticuloso, distante, austero. Tinha um cuidado extremo em não faltar às aulas e interesse pelas actividades dos estudantes, chegou mesmo a escrever e a ensaiar uma peça de teatro com os seus alunos.

Os anos de Portalegre foram sobretudo anos de criação. Em 1929 publica Biografia, uma colectânea de sonetos. Em 1934 publica o seu primeiro romance, o Jogo da Cabra-Cega, onde se revelam algumas das suas tendências mais salientes: o pendor analítico, o gosto pelo anormal como catalisador da personalidade mais profunda do ser humano, a vontade espectacular e teatralizadora e a atitude irónica, sarcástica e permanentemente interrogadora.

Em 1936 publica As Encruzilhadas de Deus e o opúsculo Críticos e Criticados (Carta a um Amigo). Em 1938 publica António Botto e o Amor. Em 1940 publica o ensaio Em Torno da Expressão Artística e o Primeiro Volume de Teatro, que inclui o mistério em três actos Jacob e o Anjo e a peça em um acto As Três Máscaras. No ano de 1941 publica a novela Davam Grandes Passeios aos Domingos, o livro de poemas Fado e a Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa, refundindo a sua tese de licenciatura. Em 1942 publica o romance O Príncipe com Orelhas de Burro.

Em 1945 publica Mas Deus é Grande, a antologia Poesia de Amor e o primeiro volume de A Velha Casa, o romance Uma Gota de Sangue. Em 1946 publica Histórias de Mulheres, uma colectânea de contos e novelas. Em 1947 publica As Raizes do Futuro, segundo volume de A Velha Casa, e a peça Benilde ou a Virgem-Mãe. Em 1949 publica o poema espectacular El-Rei Sebastião. Em 1953 publica o romance Os Avisos do Destino, terceiro volume de A Velha Casa. Em 1954 publica a tragicomédia A Salvação do Mundo. Em 1956 publica o volume Poesia de Ontem e de Hoje para o Nosso Povo Ler. Em 1957 publica a antologia de poesia de amor portuguesa Alma Minha Gentil e o volume Três Peças em um Acto, que inclui Três MáscarasO Meu Caso Mário o Eu Próprio-o Outro. Em 1958 publica em colaboração com Alberto de Serpa uma antologia de poesia religiosa portuguesa Na Mão de Deus. Em 1960 publica o romance As Monstruosidades Vulgares, quarto volume de A Velha Casa. Em 1961 publica o livro de poesias Filho do Homem, que será galardoado com o Prémio Diário de Notícias. Em 1962 publica o volume de contos Há Mais Mundos.

Além da poesia e do romance, destacam-se na sua obra os vários géneros literários: a crítica e o ensaio, sobretudo em artigos publicados na Presença e em várias outras revistas com que colaborou, e o género dramático, cultivado em tanta da sua poesia, com a publicação de várias peças teatrais.

Do ponto de vista religioso ia vivendo numa espécie de labirinto, degladiando-se razão e sentimentos obscuros, profundos. A própria razão se contraditava com argumentos contrapostos; os próprios sentimentos o atraíam a posições opostas ou diversas. A procura de Deus pelas vias usuais dos filósofos não lhe interessava; para José Maria Deus tinha que ser uma personalidade, uma existência concreta, uma transcendência viva — era deste Deus que necessitava e que continuamente buscava.

Neste mesmo ano de 1962 reforma-se e vai viver para Vila do Conde. Chegara ao fim a sua estadia em Portalegre. Aqui fizera alguns amigos fiéis, juntara uma notável colecção de arte sacra e popular, ensinara alguns milhares de alunos e transformara a vida interiormente agitada no tumulto sereno de uma obra sólida e durável. Na obra de José Régio temos presente uma diversidade de estruturas, temas, alegorias, mitos, símbolos e motivos, com que o autor procura exprimir não só o seu caso pessoal mas a condição humana nas suas alturas e nos seus abismos, nas suas condições labirínticas e nas aspirações de Eternidade e Absoluto, nas suas impossibilidades e nos seus limites, nas suas esperanças e nos seus desesperos, nas suas vulgaridades e nas suas sublimidades.

Vive ainda perto de oito anos na pequena cidade do Ave. Anos de trabalho tranquilo, apenas sobressaltados por uma experiência traumática no Sanatório Rainha D. Amélia em Lisboa e pela agitação provocada pela sua actividade jornalística. Régio era o alvo preferido de todos os movimentos literários que apareciam a renovar definitivamente a paisagem das letras portuguesas. Os seus últimos anos foram agitados por polémicas que com o seu feitio combativo e obstinado desencadeou e alimentou.

Em 1964 publica Ensaios de Interpretação Crítica, volume em que recolhe, corrigindo e desenvolvendo, textos já aparecidos noutros volumes ou em jornais, dedicados a Camões, Camilo, Florbela, e Mário de Sá-Carneiro. Em 1966 publica o quinto volume de A Velha Casa, com o título Vidas são Vidas. Em 1967 publica Três Ensaios sobre Arte, incluindo os ensaios Em Torno da Expressão ArtísticaA Expressão e o Expresso e Vistas sobre Teatro. Em 1968 publica Cântico Suspenso, livro que esteve na origem de uma releitura de Régio que muito terá contribuído para amargurar os últimos dias do poeta. Em fins de 1968 começa a escrever Confissão dum Homem Religioso, dando por praticamente concluída em Setembro de 1969 a primeira redacção do livro. Iniciara também a redacção do sexto volume de A Velha Casa.

Em Outubro de 1969 é acometido de um violento enfarte do miocárdio, de que viria a falecer a 23 de Dezembro na sua casa de Vila do Conde.

A personalidade e a obra de José Régio enchem uma época, ocupam um importante espaço da vida mental portuguesa, e só por si são o orgulho para o século XX não ter que invejar o século XIX português. Régio, tão religioso como Antero, foi mais completamente artista e tão filósofo como ele. Foi mesmo o que Antero não chegou a ser: um homem realizado em todos os aspectos em que aspirou realizar-se. Não se realizou a nível político, mas também não foi um político mas antes de tudo um homem religioso. Situá-lo numa época antes de mais política e conferir-lhe em função dessa época os atributos que revestiam a sua missão enquanto escritor é, se não mais, anacrónico. Régio procurou acima de tudo ser um espírito religioso, não apenas no sentido passivo que a religião apresenta nos seus místicos, mas no sentido positivo que a religião apresenta nos seus representantes proféticos, nos seus apóstolos, nos seus evangelizadores.

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sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Cárcere das almas | Cruz e Sousa | Sonoridade Literária






https://youtu.be/BDaEpsG6dTs?si=mBwBTNdbHGF5dQtS


quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Cruz e Souza (1861 - 1898) - Heróis de Todo Mundo - VIDEOTECA





Fonte:
https://youtu.be/AM4p9m0hYiI?si=KEYsdaPtmtUxRFV9

João da Cruz e Sousa - De Lá Pra Cá - TV BRASIL






Fonte:
https://youtu.be/z72-Gf6ch4c?si=xiT6Pe1QqCZm7vet



quarta-feira, 6 de setembro de 2023

CIÊNCIA E LETRA - CRUZ E SOUZA




https://youtu.be/IIxexqW7Rz4?si=Mv7IUue-gCc5SvTk


Ciência & Letra - Cruz e Sousa: esta edição do Ciência & Letra fala sobre o poeta João da Cruz e Sousa. Pobre, negro, filho de escravos. Estas seriam as mais sinceras e corriqueiras descrições de um dos maiores poetas da Literatura Brasileira. O apresentador Renato Farias conversa com o escritor, professor e biógrafo de poeta, Godofredo de Oliveira Neto; e Guilherme Araújo, doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Programa exibido em 01 de Dezembro de 2015. Apresentador: Renato Farias O Ciência e Letras é um programa criado em uma parceria entre a Editora Fiocruz e o Canal Saúde, destinado a amantes de livros em geral. Ele é o resultado de um encontro entre o que se escreve na academia com temas de outros saberes.



Ciência & Letras - Cruz e Sousa





quarta-feira, 30 de agosto de 2023

CRUZ E SOUZA - O "Cisne Negro" de nosso Simbolismo

 



Desconheço a autoria

Fonte: https://sibila.com.br/mapa-da-lingua/apontamentos-marginais-a-poesia-e-a-vida-de-cruz-e-sousa/4982


Vida Obscura

 

Cruz e Souza

 

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,

ó ser humilde entre os humildes seres.

Embriagado, tonto dos prazeres,

o mundo para ti foi negro e duro.

 

Atravessaste no silêncio escuro

a vida presa a trágicos deveres

e chegaste ao saber de altos saberes

tornando-te mais simples e mais puro.

 

Ninguém te viu o sentimento inquieto,

magoado, oculto e aterrador, secreto,

que o coração te apunhalou no mundo.

 

Mas eu que sempre te segui os passos

sei que cruz infernal prendeu-te os braços

e o teu suspiro como foi profundo!


  
Florianópolis - SC

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TRADUKAĴO

 

Obskura Vivo

 

Cruz e Souza


Tuŝis neniun via spasmo obscura,

ho humilul’ inter la plej humilaj!

por vi estis je noktoj maltrankvilaj

la ebria, kapŝpina mond’ plezura.


 Transiris vi en senluma silento

vivon ŝarĝita da tragikaj devoj.

Atingis vin de la saĝec’ la revoj

kaj donis vin pli simpla, nobla sento.

 

Tuŝis neniun la dolor’ sekreta,

vundita kaj terura, malkvieta,

ke l’ koro en la mond’ vin ponardis.

 

Sed mi, ĉiam sekvante viajn paŝojn,

scias pri l’ infera kruc’, la maŝojn,

kaj ĝemojn viajn, ke en mi funde ardis!

 

 El la portugala lingvo tradukis Sergio de Sersank

Londrina-(PR), la 3-an de Setembro, 2023.


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Biografia

Cruz e Souza

 

João da Cruz e Souza nasceu a 24 de novembro de 1861, na cidade de Desterro, atual Florianópolis (SC). Seus pais, Guilherme da Cruz, mestre-pedreiro, e Carolina Eva da Conceição, foram escravos alforriados pelo Marechal Guilherme Xavier de Souza e sua esposa Dona Clarinda Fagundes Xavier de Sousa. Acolhido por eles, estudou nas melhores escolas da região. Aprendeu francês, latim e grego e foi discípulo do alemão Fritz Müller, com quem aprendeu Matemática e Ciências Naturais.

Com a morte de seus protetores, teve de deixar os estudos e trabalhar para sobreviver. Formou-se em Direito.


Em colaboração com Virgílio Várzez, publicou a coletânea de versos “Tropos e Fantasias” (1885). Como jornalista, militou numa grande campanha abolicionista em viagem iniciada no Amazonas e terminada no Rio Grande do Sul (1883).

 

Alvo de perseguições raciais, foi impedido de assumir o cargo de Promotor Público em Laguna (SC), por ser negro. Em 1890 foi para o Rio de Janeiro, onde teve contato com poetas e escritores adeptos ao movimento simbolista, especialmente o da França e seus admiradores cariocas. Colaborou em alguns jornais. No entanto, apesar de bastante conhecido, à época, nos meios literários pela publicação de “Missal” e “Broquéis” (1893), conseguiu apenas o modesto emprego de arquivista na Estrada de Ferro Central.

 

Casou-se com Gavita Rosa Gonçalves, também afrodescendente, com quem teve quatro filhos, três dos quais vieram a falecer, vítimas do “mal do século”. Para ela, especialmente, compôs o soneto “Madona da Tristeza” (Últimos sonetos). Gavita o acompanhou durante os seus últimos dias em Sítio, hoje Antônio Carlos, à época distrito de Barbacena (MG).

 

Conta-se que o poeta teria sido desalojado da Pensão em que se hospedara por estar vomitando sangue. Desamparado, o imortal poeta catarinense morreu na Estação Ferroviária, ao lado de Gavita.

 

Há relatos de que, por falta de recursos, o corpo do poeta foi transportado para o Rio de Janeiro num trem de cargas de animais e que este demorou seis dias para chegar ao destino. Gavita teria viajado ao lado do corpo, em decomposição, nesse longo trajeto. Grávida, deu à luz, mais tarde, o quarto filho deles, João da Cruz e Souza Junior. Mas é provável que essa viagem fatídica ao Rio de Janeiro, tenha sido, além das perdas dos filhos e do marido, a causa de sua internação depois, como paciente altamente depressiva e com sintomas de insanidade mental. Depois de passar por vários hospitais psiquiátricos ela veio a falecer em 1905, aos 27 anos de idade.

 

Cruz e Souza, incompreendido pela crítica, não chegou a conhecer a glória.

Morreu a 19 de março de 1898, aos 36 anos.  Seu corpo foi sepultado no cemitério São Francisco Xavier, no Caju, em sepultura adquirida por seu amigo, poeta e crítico literário, Nestor Victor.

 

Dentre muitos críticos literários que se manifestaram sobre a solitária grandeza poética de Cruz e Souza e realçaram seu valor na história da poesia mundial, há que se registrar a opinião de José Veríssimo que se opunha ao Simbolismo, mas em relação a Cruz e Souza, rendeu-se ao encantamento dos versos e a respeito dele escreveu:

 

“[...] como toda a arte tende ao absoluto, ao vago, ao indefinido, ao menos das comoções que há de produzir em nós, quase estou a dizer que Cruz e Souza foi um grande poeta e os dons de expressão que faltam evidentemente ao seu estro, os dons de clara expressão, à moda clássica, os supriu o sentimento recôndito, aflito, doloroso, sopitado, e por isso mesmo trágico, das suas aspirações de sonhador e da sua mesquinha condição de negro, de desgraçado, de miserável, desprezado. É desse conflito pungente para uma alma sensibilíssima como a sua, e que, humilde de condição, se fez soberba e altiva para defender-se dos desprezos do mundo e das próprias humilhações, que nasce a espécie de alucinação de sua poesia e que faz desta uma flor singular, de rara distinção e colorido, de perfume extravagante mas delicioso, no jardim de nossa poesia.”

 

Roger Bastide, eminente crítico francês, em ensaio aprofundado sobre o movimento simbolista, destaca a importância do nosso poeta, o que lhe dá “situação à parte na grande tríade harmoniosa: Mallarmé, Stefan George, Cruz e Souza.”  Para o exegeta, “a mensagem da sua experiência é apresentada aos homens em poesia de beleza única, pois que é acariciada pela asa da noite, todavia, lampeja com todas as cintilações do diamante.”


https://floripacentro.com.br/mural-de-cruz-e-sousa-tera-cisne-negro-e-poema-manuscrito/

  

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Obras de Cruz e Sousa


 1. Publicadas em vida

 

Missal (1893)

Broquéis (1893)

Evocações (1898)

 

2. Publicadas postumamente

 

 Faróis (1900)

Últimos Sonetos (1905)

Poemas inéditos (1996)

Últimos inéditos (2013)

 

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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

UM DOS MELHORES POEMAS DE FERNANDO PESSOA

Do Livro 'MENSAGEM- Poemas Esotéricos"


 
ABDICAÇÃO  
Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho... eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa - eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços
Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.
Fernando Pessoa, 1913
*  Para melhor compreensão do significado deste belíssimo soneto, leia a seguir a
Carta de Fernando Pessoa ao amigo Mário Beirão, em 01 de Fevereiro de 1913 comentando sobre como escreveu este poema:
“Meu querido Mário Beirão:
Deu-me um grande prazer a sua carta de 25, que há dias recebi. Tinha muita pena, é certo, que v. não me tivesse escrito ainda, mas, como eu também lhe não tinha escrito, não me cabia o direito objectivo de ter essa pena. O pior para mim é que eu, por certo, sinto mais a falta de correspondência que v. Estou, quanto a companhia espiritual e imediata, quase só, se não só em absoluto... Não sou das pessoas menos acompanháveis por si próprias, mas ainda assim — e de vez em quando aborreço-me de não andar senão comigo.
Por isto a sua carta, ainda que breve, me causou uma grande alegria.


Estou atualmente atravessando uma daquelas crises a que, quando se dão na agricultura, se costuma chamar "crise de abundância". Tenho a alma num estado de rapidez ideativa tão intenso que preciso fazer da minha atenção um caderno de apontamentos, e, ainda assim, tantas são as folhas que tenho a encher que algumas se perdem, por elas serem tantas, e outras se não podem ler depois, por mais que com muita pressa escritas. As ideias que perco causam-me uma tortura imensa, sobrevivem-se nessa tortura escuramente outras. V. dificilmente imaginará que a Rua do Arsenal, em matéria de movimento, tem sido a minha pobre cabeça. Versos ingleses, portugueses, raciocínios, temas, projetos, fragmentos de coisas que não sei o que são, cartas que não sei como começam ou acabam, relâmpagos de críticas, murmúrios de metafísicas... toda uma literatura, meu caro Mário, que vai da bruma - para a bruma - pela bruma...


Destaco dessas coisas psíquicas de que tenho sido o lugar o seguinte fenômeno que julgo curioso.
V. sabe, creio, que de várias fobias que tive guardo unicamente a assaz infantil, mas terrivelmente torturadora fobia das trovoadas. Outro dia o céu ameaçava chuva e eu ia a caminho de casa e por tarde não havia carros. Afinal não houve trovoada, mas esteve iminente e começou a chover - aqueles pingos graves, quentes e espaçados - ia eu ainda a meio caminho entre a Baixa e minha casa. Atirei-me para casa com o andar mais próximo do correr que pude achar, com a tortura mental que V. calcula, perturbadíssimo, confrangido eu todo. E neste estado de espírito encontro-me a compor um soneto - acabei-o uns passos antes de chegar ao portão de minha casa -, a compor um soneto de uma tristeza suave, calma, que parece escrito por um crepúsculo de céu limpo. E o soneto é não só calmo, mas também mais ligado e conexo que algumas coisas que eu tenho escrito.
O fenômeno curioso do desdobramento é coisa que habitualmente tenho, mas nunca o tinha sentido neste grau de intensidade.
Como prova do género calmo do soneto, aqui lho transcrevo.
Dê saudades minhas ao Vila-Moura e escreva-me breve e o mais extensamente que puder.
Um grande abraço do seu dedicadíssimo
FERNANDO PESSOA
Rua Passos Manuel, 24, 3.º E.
 
(Carta retirada do livro "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação", Ed. Ática.)
 
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Fragmento do artigo de Nilza Vianna, Distrito Federal, O Espírita. Nº 47, out. nov./86, Brasília. DF, transcrito no Anuário Espírita 87, (IDE) - Ano XXIV, nº 24, pág. 124)
 

De improviso, Fernando Pessoa compôs este belíssimo soneto, que sintetiza a nossa trajetória pelos caminhos terrenos além dos milênios. 


MEDIUNIDADE :  O PRECIOSO TESTEMUNHO DE FERNANDO PESSOA
Os fenômenos mediúnicos , como sabemos, têm-se manifestado desde os primórdios de nossa civilização e pontificado nas mais diversas áreas do conhecimento humano.
Assumindo conotações as mais variadas, muito embora tenham deixado marcas irrefutáveis ao longo da história, somente com o advento da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, puderam ser convenientemente analisados, esclarecidos e desmitificados dos aspectos sobrenaturais pelos quais vinham até então sendo conhecidos.
Hoje sabemos, graças à riqueza de esclarecimentos encontrados em O Livro dos Espíritos, entre outros, no Capítulo IX, parte segunda, perguntas n.os 459 a 462, que os espíritos exercem permanente influência em nossos pensamentos e atos, estando até mesmo os homens inteligentes e de gênio, passíveis de receberem idéias e sugestões vindas do invisível.
Dentro dessa premissa, no campo da Literatura, por exemplo, entre os muitos casos que se conhece, julgamos merecedor de destaque especial, como inequívoco patenteador de influenciação espiritual recebida pelo ser humano, o do grande escritor e poeta português Fernando Pessoa (...)
 
 
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COMENTÁRIO DE ISABEL FURINI, laureada poeta e escritora sobre a obra poética "Estado de Espírito"

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