sábado, 4 de maio de 2019

Em favor da causa indígena





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DE VOLTA A URIHI
(Pelo transcurso do Dia do Índio, a 19 de abril)

De mui longínquas florestas
vem esse múrmur de rios turvos
com sinfonia de pássaros assustados
uivos, rugidos, vozes
da natureza inquieta.

O vento balouça os meus cabelos
e as copas das árvores.

Lembro Rondon pacificador
 e os irmãos Villas-Boas
nas noites tenebrosas de muitas aldeias.

Em uníssono cantam agora os índios como grandes pássaros.
Cantam e dançam
em torno à fogueira.
Mas seu canto é triste.
Das brasas vivas

evolam-se os guerreiros ancestrais:

Araribóia
Filipe Poti Camarão
Ajuricaba
Sepé Tiaraju

Cantam e dançam
são índios
vermelhos do sangue brasileiro
desafiam os deuses da terra
erguem seu grito a Tupã.

caingangues
ianomâmis
charruas
tupinambás
tupis
timbiras
guaranis kaiowás
caraíbas
caiapós
tupiniquins
xavantes
goitacazes
carajós
ashanincas
macuxis
ticunas
terenas
guajajaras
bororós
picarrãs
potiguaras
tantas mais.

Estão pintados à guerra

para a defesa de Urihi.
Davi Kopenawa
Raoni Metuktire
Ailton Krenak
Sonia Guajajara
e outros tantos.
Rufam como trovões seus tambores.


Versos me ocorrem de I-Juca Pirama(*):

“Não temas, meu filho,
não temas que a vida
é luta renhida,
viver é lutar!
Se o duro combate
aos fracos abate,
aos fortes, aos bravos,
só pode exaltar!”

Roubaram-lhes a terra virgem
roubam-lhes
os filhos
a sorte
a história.

Envergonho-me de ser natural de um país
vermelho do sangue indígena.
Este país que os humilha e despreza
ergueu-se
sobre as nações
destes filhos da selva
aguerridos
perseguidos
escravizados
ameaçados

tem para com eles uma dívida impagável.

São homens, mulheres, crianças
sempre longe de tudo
na faina de plantar caçar pescar colher frutos
e ofertar ou vender sua arte
aos invasores.

Que os ouçam, neste dia, o mundo inteiro!

Pesar do direito à vida com dignidade
privados de espaço e recursos
sem os irmãos Villas-Boas
os filhos da Terra de Santa Cruz
esses desconhecidos heróis que a natureza estima
celebram a alegria da paz que lhes é possível em seu meio
mas tentam (como e enquanto podem)
a duras penas
sobreviver.


Sersank, 19abr2019


(*) "I-Juca Pirama" é um poema clássico de Gonçalves Dias, um de nossos maiores poetas.

................................................

Nossa Terra-Floresta (Kami Yamaki Urihipë)

Para os Yanomami, ''Urihi'', a terra-floresta, não é um mero espaço inerte de exploração econômica (o que chamamos de “Natureza”) Trata-se de uma entidade viva, inserida numa complexa dinâmica cosmológica de intercâmbios entre humanos e não-humanos. Como tal, se encontra hoje ameaçada pela predação cega dos brancos. Na visão do líder Davi Kopenawa Yanomami:

A terra-floresta só pode morrer se for destruída pelos brancos. Então, os riachos sumirão, a terra ficará friável, as árvores secarão e as pedras das montanhas racharão com o calor. Os espíritos xapiripë, que moram nas serras e ficam brincando na floresta, acabarão fugindo. Seus pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los para nos proteger. A terra-floresta se tornará seca e vazia. Os xamãs não poderão mais deter as fumaças-epidemias e os seres maléficos que nos adoecem. Assim, todos morrerão."

Fontes:


POTIGUARAS, TUPINAMBAS, KAYAPOS, CAETES, TUPIS, TUPINIQUINS, PATAXOS, IANOMAMIS, XAVANTES, GUAJAJARAS, TERENAS, MACUXIS, TERENAS, CAINGANGUES, GUARANIS, TICUNAS, KAIOWAS, JAEXAA PORA.

Dia do Índio

O Dia do Índio, 19 de abril, foi criado pelo presidente brasileiro Getúlio Vargas através do decreto-lei 5 540, de 1943 e relembra o dia, em 1940, no qual várias lideranças indígenas do continente resolveram participar do Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México. Eles haviam boicotado os dias iniciais do evento, temendo que suas reivindicações não fossem ouvidas pelos "homens brancos". Durante este congresso, foi criado o Instituto Indigenista Interamericano, também sediado no México, que tem, como função, zelar pelos direitos dos indígenas na América. O Brasil não aderiu imediatamente ao instituto, mas, após a intervenção do Marechal Rondon, apresentou sua adesão e instituiu o Dia do Índio no dia 19 de abril.

Fonte: 


“(...) os Villas-Boas dedicaram todas as suas vidas a conduzir os índios xinguanos do isolamento original em que os encontraram até o choque com as fronteiras da civilização. Aprenderam a respeitá-los e perceberam a necessidade imperiosa de lhes assegurar algum isolamento para que sobrevivessem. Tinham uma consciência aguda de que, se os fazendeiros penetrassem naquele imenso território, isolando os grupos indígenas uns dos outros, acabariam com eles em pouco tempo. Não só matando, mas liquidando as suas condições ecológicas de sobrevivência.” (RIBEIRO, Darcy. Confissões. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 194)

Os índios

Artigo de jornal da década de 1970
No aspecto dos índios, os irmãos Villas-Boas implantaram uma nova política indigenista, que, basicamente, consiste na defesa dos valores culturais dos índios, como único meio de evitar a marginalização e o desaparecimento dos grupos tribais. A partir da máxima segundo a qual “O índio só sobrevive na sua própria cultura”, os irmãos Villas-Bôas conseguiram implantar uma nova forma de relacionamento entre nossa sociedade e as comunidades indígenas brasileiras. Essa política vem sendo esposada por etnólogos e entidades científicas não só nacionais, como estrangeiras.
Os Villas-Boas mostraram que a antiga visão que a sociedade nacional tinha acerca do índio era absolutamente equivocada. Não se tratava, portanto, de sociedades selvagens, sem regras e sem estrutura social como se narrava na época do Descobrimento do Brasil. A nova imagem do índio, trazida pelos Villas-Bôas à nossa sociedade, era a de uma sociedade equilibrada, estável, erguida sobre sólidos princípios morais e donos de um comportamento ético que sustentava uma organização tribal harmônica. A esse respeito Cláudio Villas-Bôas teria dito certa feita:
(...) “Se achamos que nosso objetivo aqui, na nossa rápida passagem pela Terra, é acumular riquezas, então não temos nada a aprender com os índios. Mas se acreditamos que o ideal é o equilíbrio do homem dentro de sua família e dentro de sua comunidade, então os índios têm lições extraordinárias para nos dar.” Cláudio Villas-Bôas
https://www.youtube.com/watch?v=rr_tyGdscio

“É impagável a dívida social que temos para com os povos indígenas do Brasil. Os portugueses colonizadores, os donatários das Capitanias Hereditárias, os Bandeirantes e, depois os invasores de terras, grileiros e outros bichos, quase que dizimaram sua cultura, suas línguas, seus costumes. E são eles, os legítimos herdeiros da Pindorama, as terras de Santa Cruz. (Sersank) 

Fila de índios se apresentando para a cerimônia do Kuarup

Parqu






Bolsonaro é a ameaça mais séria aos indígenas:
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/bolsonaro-e-a-ameaca-mais-seria-aos-indigenas-desde-a-constituicao-de-1988-avalia-revista-cientifica-britanica/?fbclid=IwAR1Wo8U2PHk6ckjR6NmlBDvHhPg0zQtjeNZNY-iTAMjLzY7FdtW1pupQqnI

https://leonardoboff.wordpress.com/2019/10/30/a-vantagem-da-imperfeicao/

https://antropofagista.com.br/2020/02/08/itau-e-dono-da-ambev-estao-entre-acionistas-que-invadem-terra-indigena-jaragua-em-sp/

Abrahamm Weintraub: "Odeio o termo POVOS INDÍGENAS"
https://leonardoboff.org/2020/06/15/odeio-o-termo-povos-indigenasuma-blasfemia-em-dois-atos/

https://leonardoboff.org/2020/08/16/una-poesia-orada/



domingo, 21 de outubro de 2018

sábado, 18 de agosto de 2018

Nova Biografia de ZAMENHOF, Autor do Esperanto


Recebi das mãos do meu amigo Fernando Pita, do Rio de Janeiro (que fez o  prefácio em língua portuguesa), esta preciosidade que lí com muito prazer e compartilho com os seguidores e visitantes do Blog. 





Caso tenham interesse em adquirir a obra, registrem a solicitação nos comentários. Passarei as informações para o procedimento, via E-mail.



 

domingo, 8 de abril de 2018

RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE (Em memória de Teilhard de Chardin)



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A religião e a espiritualidade

Teilhard de Chardin



A religião não é apenas uma, são centenas.
A espiritualidade é apenas uma.
A religião é para os que dormem.
A espiritualidade é para os que estão despertos.
A religião é para aqueles que necessitam que alguém lhes diga o que fazer e querem ser guiados.
A espiritualidade é para os que prestam atenção à sua Voz Interior.
A religião tem um conjunto de regras dogmáticas.
A espiritualidade te convida a raciocinar sobre tudo, a questionar tudo.
A religião ameaça e amedronta.
A espiritualidade lhe dá paz interior.
A religião fala de pecado e de culpa.
A espiritualidade lhe diz: "aprenda com o erro".
A religião reprime tudo, te faz falso.
A espiritualidade transcende tudo, te faz verdadeiro!
A religião não é Deus.
A espiritualidade é Tudo e, portanto é Deus.
A religião inventa.
A espiritualidade descobre.
A religião não indaga nem questiona.
 A espiritualidade questiona tudo.
A religião é humana, é uma organização com regras.
A espiritualidade é Divina, sem regras.
A religião é causa de divisões.
 A espiritualidade é causa de união.
A religião lhe busca para que acredite.
A espiritualidade você tem que buscá-la.
A religião segue os preceitos de um livro sagrado.
A espiritualidade busca o sagrado em todos os livros.
A religião se alimenta do medo.
 A espiritualidade se alimenta na confiança e na fé.
A religião faz viver no pensamento.
 A espiritualidade faz viver na consciência.
A religião se ocupa com fazer.
 A espiritualidade se ocupa com ser.
A religião alimenta o ego.
 A espiritualidade nos faz transcender.
A religião nos faz renunciar ao mundo.
A espiritualidade nos faz viver em Deus, não renunciar a Ele.
A religião é adoração.
A espiritualidade é meditação.
A religião sonha com a glória e com o paraíso.
A espiritualidade nos faz viver a glória e o paraíso aqui e agora.
A religião vive no passado e no futuro.
A espiritualidade vive no presente.
A religião enclausura nossa memória.
 A espiritualidade liberta nossa consciência.
A religião crê na vida eterna.
A espiritualidade nos faz consciente da vida eterna.
A religião promete para depois da morte.
A espiritualidade é encontrar Deus em nosso interior durante a vida.

Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual.
Somos seres espirituais passando por uma experiência humana.

Frei FREI BETTO


Teilhard de Chardin, meu guru

Aquela cabeça fora capaz de conceber uma das mais abrangentes visões do Universo, na qual todos os elementos se integram.
No domingo de Páscoa, 10 de abril de 1955, há 60 anos, em Nova York, o jesuíta Pierre Teilhard de Chardin, 73, levantou-se da cadeira para servir-se de chá. Não chegou à mesa. Um ataque cardíaco pôs fim à sua vida. No enterro não havia mais de três pessoas.
Para muitos, sua morte representou um alívio. Cessara o movimento daquele cérebro poderoso. Como tantos que ousam pensar pela própria cabeça e se recusam a acreditar que a verdade é filha da autoridade, Teilhard teve um final solitário.
Aquela cabeça fora capaz de conceber uma das mais abrangentes visões do Universo, na qual todos os elementos se integram, das micropartículas subatômicas à atração de toda a matéria pelo Ponto Ômega, que coroaria o processo de evolução da natureza. Essa grandiosa síntese foi registrada em livros e artigos que, durante sua vida, seus superiores nunca permitiram que fossem publicados, com receio de um novo caso Galileu.
Editada após a sua morte, a obra de Teilhard alcançou, na década de 1960, repercussão inesperada. Figurou meses nas listas de best sellers da Europa e dos EUA. Em 1962, introduzi Teilhard no Brasil, graças às traduções de Conrad Detrez. Os resumos em apostilas mimeografadas, vendidos à porta de faculdades do Rio, estão hoje no livro “Sinfonia universal - A cosmovisão de Teilhard de Chardin”. Mais tarde, graças a Teilhard, aprofundei a relação entre espiritualidade e física quântica em “A obra do artista - Uma visão holística do Universo”.
Nascido na França, Teilhard era filho de uma neta de Voltaire, pensador que introduziu em seu país as teorias de Isaac Newton e combateu toda espécie de superstição e intolerância. Aos 11 anos, aluno de colégio jesuíta, Teilhard demonstrava interesse pela geologia. Encontrou um mestre que o convenceu de que o melhor serviço a Deus pode ser o amor às pedras...
Em 1913, aos 32 anos, descobriu o amor a uma mulher. “Estando desde a infância” - escreve ele em “O coração da matéria” - “à procura do coração da matéria, era inevitável que, um dia, eu me encontrasse face a face com o Feminino. [...] Parece-me indiscutível que ao homem - mesmo a serviço de uma causa ou de Deus - não é possível nenhum acesso à maturidade e à plenitude espirituais fora de qualquer influência sentimental que venha nele sensibilizar a inteligência e suscitar, pelo menos inicialmente, as potências de amar.”
Doutorou-se em Ciência em 1922, na Sorbonne e, em 1923, fez sua primeira viagem à China. Participou da descoberta da primeira prova da existência do homem pré-histórico. Escreveu, então, uma de suas mais belas obras, “A missa sobre o mundo”.
De volta a Paris, em 1924, seus trabalhos adquiriram fama. Seus superiores, preocupados com suas ideias pouco ortodoxas, o forçaram a abandonar o Instituto Católico de Paris e a retornar à China. Em Tien-Tsin, escreveu “O meio divino”. Em 1929, participou da descoberta de Sinantropo, e passou a se preocupar com a origem da espécie humana. Começou a redigir sua obra mais famosa, “O fenômeno humano”.
Retornou a Paris em 1946. O Colégio da França lhe ofereceu uma cadeira. Ele pediu a Roma permissão de aceitá-la, bem como de publicar “O fenômeno humano”. Não conseguiu. No ano anterior, havia escrito a autobiografia “O coração da matéria”.
Teilhard buscou a verdade nas pedras das montanhas e nos esqueletos dos ancestrais da espécie humana, confiante de que a evidência da verdade é filha do tempo. Censurado, calado, exilado, não abandonou suas pesquisas e escreveu convencido de que a posteridade lhe daria razão, tendo tido o cuidado de confiar os originais a parentes e amigos com liberdade de divulgar sua obra.


Do jornal “O Globo” de 09/04/2015

Fonte:


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quinta-feira, 22 de março de 2018

22 DE MARÇO: DIA MUNDIAL DA ÁGUA





DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DA ÁGUA


      Em 22 de março de 1992 a ONU (Organização das Nações Unidas) instituiu o "Dia Mundial da Água", publicando um documento intitulado "Declaração Universal dos Direitos da Água". Eis o texto que vale uma reflexão:


1.- A água faz parte do patrimônio do planeta. Cada continente, cada povo, cada nação, cada região, cada cidade, cada cidadão, é plenamente responsável aos olhos de todos.

2.- A água é a seiva de nosso planeta. Ela é condição essencial de vida de todo vegetal, animal ou ser humano. Sem ela não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura.

3.- Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados. Assim sendo, a água deve ser manipulada com racionalidade, precaução e parcimônia.

4.- O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos. Estes devem permanecer intactos e funcionando normalmente para garantir a continuidade da vida sobre a Terra. Este equilíbrio depende em particular, da preservação dos mares e oceanos, por onde os ciclos começam.

5.- A água não é somente herança de nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores. Sua proteção constitui uma necessidade vital, assim como a obrigação moral do homem para com as gerações presentes e futuras.

6.- A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo.

7.- A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser feita com consciência e discernimento para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis.

8.- A utilização da água implica em respeito à lei. Sua proteção constitui uma obrigação jurídica para todo homem ou grupo social que a utiliza. Esta questão não deve ser ignorada nem pelo homem nem pelo Estado.

9.- A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social.

10.- O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.



sábado, 17 de fevereiro de 2018

LEMBRANDO LEOPOLDO MACHADO




Artigos

por Celso Martins


Lembrando Leopoldo Machado
 

             Como forma de homenagear a memória de Leopoldo Machado Barbosa, um dos mais destacados vultos do Movimento Espírita em nosso país, registramos algumas das memoráveis ocorrências de sua proveitosa existência, lembrando que ele nasceu em 30 de setembro de 1891 em Cepa Forte, interior da Bahia (atualmente Jandaíra) e desencarnou em Nova Iguaçu (RJ) na noite do dia 22 de agosto de 1957.
 
1. Leopoldo recebeu, da parte de sua mãe Anna Izabel Machado, orientação católica. Escrevendo, porém, na Revista Internacional de Espiritismo, sob a rubrica “Memórias de um Espírita Baiano”, deu a perceber que ainda menino já questionava os dogmas eclesiásticos. No dia em que fez a primeira comunhão, na saída da igreja com outras crianças de sua idade vestidas de branco e bem-comportadas, teria dito o Padre:
- “Não fosse sacrilégio, bom seria que vocês todos morressem agora. Purinhos, limpinhos, iriam logo para o céu”.
Pouco depois, Leopoldo passou a atirar pedras contra umas vacas que pastavam perto da igreja. Vendo aquela peraltice, o padre o adverte: “Mas você fazendo esta maldade, menino! Ainda há pouco estava eu desejando o ingresso de vocês todos no céu...” Ao que retruca o menino, já arguto: - “Ora, padre, depois eu me confesso e volto a ficar todo puro, todo limpo e poderei entrar no céu”.
Mal sabia aquele clérigo que no futuro essa mesma criança viria a ser um destemido defensor do Espiritismo!
2. Ainda pequeno, Leopoldo fora acometido de estranha febre. O médico que o atende sentencia: “Se escapar, ficará retardado”. Mas como sequela disso ficou-lhe apenas a leve gagueira. A moderna Foniatria acena, quanto a isso, para causas genéticas. O fato é que ele, sempre lúcido, nos legou trinta livros de versos, contos, biografias e relatos de viagens, estes visando à unificação dos espíritas, como o sempre lembrado “A Caravana da Fraternidade” (1952), fruto do histórico “Pacto Áureo” da Federação Espírita Brasileira.
3. Contava Leopoldo Machado dezoito anos (1909) e residia em Salvador (BA) quando seu pai, Eulálio de Souza Barbosa, retorna ao lar do qual estivera ausente durante anos, por razões políticas. Nasce a 26 de fevereiro do ano seguinte sua irmã Leopoldina. O pai manifestou insatisfação, pois desejava que viesse um menino. Todos os filhos anteriores eram do sexo masculino.
Leopoldo assumiu, então, diante do pai, a responsabilidade de cuidar da irmãzinha. A própria Professora Leopoldina Machado, revelaria anos mais tarde ao Celso Martins que a conheceu em 1960, dela se fazendo amigo até o seu desenlace no ano 2000:
- “Leopoldo me foi mais que irmão. Foi meu segundo pai”.
Ele teria dito, naquela ocasião, ao genitor:
- “Pai, se o Senhor não quiser, deixe que eu eduque a criança. O Senhor andou foragido durante um bom tempo e nem por isso morremos de fome. Deixe comigo a criação de minha irmãzinha”.
Leopoldo, de fato, cumpriu sua promessa. 
Dele herdou Leopoldina a honradez do caráter, o dinamismo, a franqueza e a sinceridade, conforme o Celso Martins pôde de perto comprovar. Habitualmente e às vezes sem que ninguém soubesse, ela dava auxílios a muitas anciãs viúvas, carentes.
4. Rapazola, descrente das pregações religiosas, durante uma quadra de sua vida, Leopoldo Machado chegou a ser materialista. Mas, casado com Marília Barbosa, em 1917, graças ao desvelo desta companheira, fez-se adepto do Espiritismo e mais que isto, tornou-se um de seus maiores defensores na tribuna, no rádio, no livro, assim como nas revistas e jornais do Brasil e do Exterior.
Um fato digno de nota:
Seu terceiro livro “Ideias” (1920), um compêndio de poesias elogiado por renomados escritores, dentre os quais o poeta Amaral Ornellas, enviado a um crítico literário da época, autografado, foi-lhe devolvido com essas ríspidas palavras: “Quando o Senhor tiver ideias, manda-me um exemplar”. Consta que o Professor autodidata, marido da Professora formada Marília Barbosa, a isso respondeu com uma de suas sonoras gargalhadas. Era o jeito Leopoldo de encarar a vida.
Uma curiosidade:
No seu livro “Natal dos Cristãos Novos” – que este velho articulista leu com muito interesse e maior proveito, Leopoldo Machado estampou um soneto ao qual deu o sugestivo título “Destino Sereno e Nobre” onde, deliberadamente, ele não faz aparecer a vogal “a”.
5. Em 1932, o Professor Leopoldo Machado que havia fundado no dia 1º de fevereiro de 1930, em Nova Iguaçu, com apoio da esposa Marília Barbosa, de sua irmã Leopoldina e da cunhada Marília Ferraz de Almeida, o Gymnázio Leopoldo (nome dado em homenagem ao Príncipe Belga, seu xará, futuro Rei Leopoldo III, que visitava o Brasil), deveria proferir palestra na Instituição Espírita Legionárias de Maria, fundada por Sarah Morais e outros – um prédio de dois pavimentos que se localiza na Rua Rio Grande do Sul, 43 – Bairro do Meier (RJ). Era o aniversário de fundação dessa notável Instituição que manteve por diversos anos a publicação semestral da revista “Vozes do Coração”, a qual era distribuída gratuitamente até para o Exterior. Nesse dia, ele estava em casa febril. Marília, a esposa, não permitiu que fosse nem mesmo no carro e sob a assistência de seu amigo Lindolfo – um dos fundadores do Centro Espírita Amor e Justiça, erguido no bucólico bairro de Engenho Pequeno, quase na Estação Ferroviária de Andrade Araújo.
No seu lugar, para lá seguiu Marília. De volta ao lar, altas horas da noite, ela – comovida - recebeu do marido acamado belos sonetos sobre a figura da mulher – mãe, filha, esposa, amiga, irmã. Com efeito, na poesia foi também gigante o nosso Leopoldo. Haja vista que entre outras façanhas literárias compôs um interessante poema sobre as dez palavras mais lindas de nosso idioma. Entre estas: Deus, Paz, Luz, Fé, Mãe...
6. No ano de 1936, Leopoldo Machado comparece gripado e febril ao auditório repleto da S. C. Filhos de Iguaçu. Havia sido desafiado a debater com o padre holandês Jacob Huddleston Slater. Este falava bem o nosso idioma e era exímio orador eclesiástico. No desejo de enquadrar a prática espírita como criminosa, o padre trouxera consigo um exemplar do velho Código Civil. O sempre lembrado letrista da “Canção da Alegria Cristã” propôs que iniciassem o debate – já que se tratava de um debate sobre religião – com a oração do “Pai Nosso”. Presidiu a “Sensacional Polêmica” (título, aliás, do livro que Leopoldo depois escreveu) o Coronel reformado do Exército e farmacêutico, Sebastião Herculano de Mattos. Ao fim do longo debate, o velho espírita baiano saiu nos braços do povo que o aplaudiu entusiasticamente.
7. A professora Leopoldina, irmã de Leopoldo Machado, certa vez disse a este articulista que as únicas brigas que ele e sua dileta esposa, Marília, tinham eram irrelevantes. Em dias de intensa chuva, por exemplo, contrariando-a, ele insistia em sair usando velho e surrado guarda-chuvas embora tivesse um mais novo em casa.
Em 25 de dezembro de 1940, com diversos familiares e amigos espíritas, Marília Barbosa fundou o “Lar de Jesus” – orfanato destinado a acolher meninas órfãs carentes – o qual funciona até hoje na Rua Professor Leopoldo Machado, 50 - bairro Caonze (K-11), em Nova Iguaçu (RJ).
Essa iniciativa de Marília Barbosa teria sido inspirada no trabalho de Ruth Sant’Anna, outra importante seareira do movimento espírita (autora do livro “Quanto Vale um Ideal”), a qual havia fundado em 11 de outubro de 1938 a “Casa de Lázaro” – renomado Educandário Social de Assistência e Amparo à Criança – situado na Rua Torres Sobrinho, 57 – no Meier (RJ). Inspirou da mesma forma a criação do “Lar de Maria” em Macaé por iniciativa do Professor Pierre Maciel Ribeiro e a fundação do “Lar de Maria”, na capital do Pará, graças aos esforços do Oli de Castro, coautor da música “Canção da Alegria Cristã” (cuja letra é de Leopoldo Machado).
8. Em meados de 1949, com meus sete anos incompletos, conheci o Padre alemão João Müsch. Ele dava aulas de religião na Escola Municipal Dr. França Carvalho, perto das ruinas da Igreja de Santo Antônio da Jacutinga, patrono de Nova Iguaçu.  Foi lá que fiz o curso primário.
Certo dia, o Padre João pediu permissão a Leopoldo Machado para dar aulas de catequese no seu colégio (Gymnázio Leopoldo). O líder espírita respondeu que consentiria uma vez que o clérigo abrisse espaço para o autor de “Catolicismo x Espiritismo” (1937) dar aulas de Doutrina Espírita no Colégio das Irmãs.
Como o Padre não aceitasse essa contraproposta jamais voltou a tocar no assunto.
Vim a saber, através do Léo, (Leopoldo Machado Barbosa de Barros), sobrinho do nosso biografado, que, apesar das divergências, o Padre João e Leopoldo Machado eram amigos e quase todos os domingos almoçavam juntos. Aí entendi porque melancolicamente dobraram os sinos da Igreja Católica quando passou diante dela, pela Rua Marechal Floriano, o grande cortejo fúnebre que conduzia ao “campo santo” o corpo do inesquecível autor de obras valiosas, como o “Ide e Pregai!” – série de relatos das frequentes viagens que Leopoldo fez pela unificação dos espíritas de nossos vastos brasis.
9. Conta-se que Leopoldo Machado e amigos, durante algum tempo, divulgaram o Espiritismo através de uma emissora de rádio do Rio de Janeiro, então sede do Distrito Federal. Após o programa espírita entrava no ar o de um pastor evangélico. Num desses dias, aquele seguidor de Lutero, ao cruzar com Leopoldo nos corredores, em tom de ironia, lhe fez a seguinte provocação:
_ “Eu me converterei imediatamente ao Espiritismo se o Senhor fizer aparecer agora aqui o Espírito de minha falecida mãe”.
O intrépido defensor da Doutrina Espírita respondeu:
- “Meu amigo, eu teria pelo menos três razões para provar ao Senhor que não basta querermos que um Espírito se comunique. Vou ser breve. Primeiramente é preciso saber se ele está em condições de fazê-lo, depois, se haveria um médium adequado e com o qual ele tivesse afinidade e, por último, restaria saber se ele, o Espírito, quer essa comunicação. Se o Senhor não respeita a sua mãezinha, saiba que ela tem todo o meu respeito. Saiba, por fim, que o Espiritismo nada teria a ganhar ou perder com sua adesão. Passe bem!”
10. Certa ocasião, Leopoldo Machado voltava do Orfanato Lar de Jesus, fundado por Marília Barbosa, no natal de 1940 e localizado no bairro iguaçuano Caonze (K-11).
Um padre se aproxima (não se sabe se o teria reconhecido) e pede-lhe auxílio financeiro para a construção de uma igreja naquele bairro. De imediato, Leopoldo abre a carteira e concede algum dinheiro. Todavia, assim que o padre se afasta, um dos amigos que estavam com ele o censura dizendo que aquele religioso iria depois atacar os espíritas.
O esclarecido autor do livro “Espiritismo e Cientismo” (editado em Lisboa, Portugal) replica, com altivez:
- “Caso me pedissem auxílio para fundar um cassino, um bordel ou botequim no bairro, claro que não ajudaria. Mas, em se tratando de uma casa religiosa, estarei sempre pronto a apoiar. Trará progresso para a comunidade. E se ele usar o púlpito para atacar o Espiritismo, eu serei o primeiro a defendê-lo em nossas tribunas”.
 
Sergio de Sersank colaborou com pequenos acréscimos e revisão do texto.


http://www.oconsolador.com.br/ano11/555/ca2.html
18/02/2018

O Consolador - Revista Semanal de Divulgação Espírita
 
 
 
 
 
 

 

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COMENTÁRIO DE ISABEL FURINI, laureada poeta e escritora sobre a obra poética "Estado de Espírito"

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Veja aqui a NOTA da Prefeitura Municipal de Londrina sobre o lançamento doLivro de SERSANK

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EL VIAJE DEFINITIVO - Poema de Juan Ramon Jimenez

https://www.youtube.com/watch?v=GspatgDGhO8&feature=emb_rel_end